terça-feira, 8 de maio de 2018

Velha Fonte ou Arena?

       É muito comum para os tricolores de mais de 40 anos que a comparação entre a Velha Fonte Nova e a atual Arena ocorra com uma pitada de nostalgia em favor do velho Estádio Octávio Mangabeira.
       Claro que as razões da comparação só podem ser emocionais e como eu me enquadro nessa categoria geracional, me senti motivado a investigar e compartilhar neste post os motivos psicológicos dessa nostalgia.  A investigação começa pela recordação de meu primeiro jogo, numa data remota de 1978(os estatísticos de plantão terão mais detalhes). Na verdade foi uma rodada dupla com Leônico x Atlético de Alagoinhas no primeiro jogo e o  Ba x Vi como jogo de fundo.
       Eu tinha 8 anos e foi a primeira e última vez que fui à Fonte Nova com meu pai. Ele nunca teve carro (primeiro porque não quis, depois porque não pode) e não gostava de andar na carona dos outros. Mais complicado ainda é, andando de carona, carregar uma criança. Porém, contrariando todos esses preceitos, estreei na Fonte Nova. Minha memória desse evento se restringe a imagem de Luís Ferreira joando pelo Leleco na preliminar,  um certo predomínio do Vitória (lembro bem de Sena no meio de campo), Baiaco (que carimbava a bola) e do gol de Douglas (escorando de joelho um cruzamento que veio da esquerda). Sim, ganhamos de 1 x 0 meu primeiro Ba xVi.
      Depois disso só fui voltar, com minhas próprias pernas, em 86, para ver a reta final do Campeonato brasileiro do melhor Bahia que vi jogando. O time de Rogério, Zanata, Estevam, Pereira e Edinho, Paulo Martins, Leandro e Bobô, Zé Carlos, Cláudio Adão e Sandro jogava um futebol muito ofensivo e fomos premiados por belíssimas atuações, golaços de Bobõ e Cláudio Adão (que por muito tempo, até a chegada de Fernandão em 2013, ficou sendo o maior artilheiro do Bahia em brasileiros, com 16 gols). Bobõ ganhou placa em um gol contra o Operário de Várzea Grande e o Bahia ficou em quinto lugar, eliminado em dois jogos parelhos por um esfuziante Guarani que tinha  Ricardo Rocha na zaga, um meio de campo com Tozin, Tite e Boiadeiro e um ataque em que brilhavam João Paulo e Evair. O Guarani seria Vice-campeão em uma final épica contra o São Paulo de Careca & companhia.
     Foi esse Bahia - que viria levantar o Campeonato brasileiro de 88 - que nos acostumamos a ver na Velha Fonte e ao qual a memória do velho estádio está atrelada. Um período em que a torcida do Bahia aumentou a autoestima (me lembro de sair da fonte Nova reclamando porque o Bahia tinha dado "só" 1 x 0 no Flamengo). No plano territorial, havia a sensação de liberdade. Eu devo ter assistido os jogos em vários pontos, inclusive meu irmão Othon tinha a mania "antropológica" de visitar a torcida adversária. A coisa que mais me dá saudade é de assistir o Ba x Vi com torcida dividida. Me lembro de toda a faixa que a torcida do Vitória ocupava no Estádio e de como era colorido o Ba x Vi. Depois do advento do Barradão, começou a ter "cota" para a torcida "visitante' e chegamos ao absurdo de torcida única. Sei que vão chover razões para explicar sociologicamente esses fenômenos (a segurança é a mais recorrente), mas quem assistiu o Ba x Vi com torcida dividida sabe do que estou falando. Acho que deveria ser dividida, inclusive no Barradão ou em algum Estádio que o Bahia viesse a ter.
    Não sou contra o conforto de dentro das Arenas (fora ainda passamos por constrangimentos dos mais vexatórios na hora de adquirir o ingresso e entrar no Estádio), mas não consigo vivenciar na Arena o encantamento da convivência com os tipos populares, com a bateria do Olodum, com Lazinho e Carlinhos Brown dividindo a arquibancada com a gente na velha Fonte, com a facilidade de entrar, sair e se mover, dentre outras facilidades. Claro que o Estádio não deveria ficar longe de reformas a ponto de um desabamento da arquibancada ceifar a vida de tricolores que comemoravam um acesso depois de sete anos de malogro que levaram o Bahia à série C, mas a reflexão sobre essa tragédia dá assunto para outras páginas. Essa aqui, por enquanto é atravessada pela saudade!